Educação é sonho distante para jovens refugiados

segunda-feira, maio 19, 2014

jovensEerie quer ser engenheiro mecânico. Isaac,  físico. Após décadas de conflitos pela independência do Sudão do Sul, conquistada em 2011, eles tinham voltado para a escola e retomado planos para o futuro.

Com a guerra civil em que mergulhou o país desde dezembro, porém, o sonho parece de novo distante. Eerie e Isaac estão entre os mais de 120 mil refugiados que atravessaram a fronteira para Uganda desde o início da nova guerra. Entre eles, a metade tem entre 3 e 17 anos, segundo o Unicef.

São jovens em idade escolar, mas praticamente todos eles estão fora da escola. A educação não é prioridade no atendimento humanitário aos refugiados e, sim, comida e remédios. Eles passam os dias nos campos, ajudando a buscar água e lenha, cozinhando e cuidando dos irmãos mais novos. Muitos estão sozinhos, porque se perderam das famílias.

Nos campos de Uganda, ainda não há escolas. No distrito de Adjumani, fronteira da Uganda com o Sudão do Sul, e onde se refugiou a maior parte dos sul sudaneses que deixaram o país, o governo disponibilizou as escolas locais, segundo Boniface Mungen, vice-diretor de emergência da organização Save the Children. Mas a maioria fica a quilômetros e quilômetros dos assentamentos ou está superlotada. Em distritos como Kiryandongo, a 226 quilômetros de Adjumani, as escolas estão perto de chegar à capacidade máxima, com a chegada dos refugiados e, em pouco tempo, não poderão aceitar novas matrículas.

Nos campos, professores também refugiados reúnem as crianças sob árvores para aulas informais, que ajudam a passar o tempo, mas estão longe de ser parte da educação formal dos meninos e meninas.

Além disso, sem uma política de integração, nem sempre as crianças refugiadas convivem bem com as nativas. Relatórios da Agência da ONU para Refugiados (Acnur) apontam para a situação em Adjumani. Segundo a organização, apesar de algumas crianças estudarem juntas, nos momentos de lazer os sul sudaneses ficam em grupos isolados, o que prejudica a formação psicológica e adaptação na comunidade.

Segundo o Unicef, serão necessários US$ 4,5 milhões para levar os refugiados à escola em Uganda até dezembro. Segundo a organização, a situação é crítica e medidas emergenciais têm sido tomadas, como a “escola na caixa”, um kit para que as crianças estudem sozinhas.

No centro de recepção de Nyumanzi, a primeira escola começou a ser construída apenas quatro meses depois do início da crise. Mungen, da Save the Children, diz que serão oferecidos o ensino primário e secundário. Segundo ele, os professores são da própria comunidade e receberão treinamento para lecionar.

Educação universitária. Cursar uma universidade é ainda mais difícil para os jovens refugiados. O ensino é caro e, nos campos, eles não têm sequer como estudar para concorrer a uma vaga.

Desde os tempos de escola no Quênia, onde se refugiou durante a guerra pela independência do Sudão do Sul, Eerie Susp, de 22 anos, sonhava em ser cientista. Em 2010, ele voltou para casa com planos de cursar engenharia mecânica, mas os planos foram interrompidos pelo início do novo conflito, o que o obrigou a fugir novamente, agora para Uganda. “Se eu quiser mesmo estudar vou ter que me esforçar muito. Primeiro preciso de paz no meu país, depois de dinheiro para conseguir pagar”, diz o jovem.

A família de Isaac Alviero, de 22 anos, tentava economizar dinheiro para que ele pudesse cursar Física. Com a nova guerra, porém, o sonho teve de ser adiado. “Quando eu voltar para o meu país, talvez tenha que desistir da universidade e escolher algo mais barato para estudar, como um curso técnico”.

Akeem Kafumba, de 30 anos, faz parte de outro numeroso grupo de refugiados em Uganda, os congoleses, e enfrenta as mesmas dificuldades de Eerie e Isaac. Os pais eram políticos no Congo e foram assassinados por um grupo rival. Ele tentou continuar estudando, mas foi perseguido pelos assassinos de seus pais. Assim que terminou o segundo grau, fugiu para Uganda. Ele ainda sonha em se tornar advogado, mas já não acha que vai conseguir. “Estudar aqui é muito difícil porque você tem que ter alguém que te apoie financeiramente e eu não tenho nenhum parente comigo. Todos ficaram no Congo”, explica. Quando questionado se gostaria de voltar para o seu país, ele responde: “A única coisa de lá que sinto falta é a escola. Se voltasse, seria pelos meus estudos.”

Hoje ele trabalha como supervisor na organização internacional Médicos sem Fronteiras, ajudando os novos refugiados que chegam do Sudão do Sul. Mas isso não garante a ele uma vaga na universidade. “Quem vai dar oportunidade para um refugiado?”, pergunta.

* Talissa Monteiro, de 21 anos, aluna de jornalismo do Centro Universitário de Volta Redonda, foi a ganhadora do concurso de reportagem promovido durante a oficina “Ajuda Humanitária em Pauta – como cobrir conflitos armados, desastres naturais e epidemias”, pela organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF). Em uma parceria do blog “do front” com MSFes, Talissa acompanhou a reportagem do Estado na cobertura da crise humanitária no norte de Uganda, região que recebeu o maior número de refugiados da guerra civil no vizinho Sudão do Sul.

Fonte: Estadão


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